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O Peso do Silêncio: Sofrimento Mental entre Trabalhadores do Sector Público-Privado em
Angola

The Weight of Silence: Mental Suffering Among Public-Private Sector Workers in Angola

El Peso del Silencio: Sufrimiento Psicológico entre Trabajadores del Sector Público-Privado en
Angola

Américo Custódio Hungulo
1

Universidade Ó
scar Ribas, Angola

ahungulo@gmail.com

1
Doutorando em Psicologia do
Trabalho e das Organizações
.

Resumo: O sofrimento mental relacionado com o trabalho constitui um importante desafio para a saúde
ocupacional,
especialmente
em
contextos
organizacionais
caracterizados
por
riscos
psicossociais
e
reduzido suporte institucional. Este artigo teve como objectivo analisar criticamente a produção científica
sobre a relação entre a organização do trabalho, os riscos psicossociais, o silêncio organizacional e o
sofrimento mental
dos
trabalhadores,
com
especial enfoque
nas
organizações
públicas
e
privadas
em
Angola. Trata-se de uma revisão narrativa crítica da literatura, conduzida a partir de buscas nas bases
SciELO, Redalyc, Dialnet e Latindex, complementadas por literatura especializada publicada entre 1980
e 2024, embora façamos recurso a algumas obras publicadas posteriormente para reforçar a argumentação.
A análise evidenciou que modelos de gestão baseados em elevada hierarquização, sobrecarga de trabalho,
reduzida
autonomia
e
escassez
de
espaços
de
participação
favorecem
a
intensificação
do
sofrimento
psicológico
e
dificultam
a
sua
identificação
e
o
seu
enfrentamento
no
ambiente
laboral.
Os
estudos
também demonstram que a responsabilização individual pelo adoecimento tende a ocultar a influência
das condições organizacionais sobre a saúde mental dos trabalhadores. No contexto angolano, a limitada
incorporação da saúde mental nas políticas institucionais reforça a necessidade de estratégias voltadas para
a promoção de ambientes de trabalho psicologicamente seguros, com práticas de gestão participativas,
fortalecimento dos mecanismos de escuta e prevenção dos riscos psicossociais. Conclui-se que a promoção
da saúde mental no trabalho depende da integração entre políticas organizacionais, condições laborais
adequadas e reconhecimento dos factores psicossociais que influenciam o bem-estar dos trabalhadores.

Palavras-chave:
Sofrimento
mental,
Saúde
mental
no
trabalho,
Riscos
psicossociais,
Silêncio
organizacional, Angola.

Abstract:
Work-related
mental
distress
constitutes
a
significant
challenge
for
occupational
health,
particularly in organizational contexts characterized by psychosocial risks and limited institutional support.
This
article
aimed
to
critically
analyze
the
scientific
production
on
the
relationship
between
work
organization, psychosocial risks, organizational silence, and workers’ mental distress, with special focus on
public and private organizations in Angola. This is a critical narrative literature review conducted through
searches in the SciELO, Redalyc, Dialnet, and Latindex databases, complemented by specialized literature
published between 1980 and 2024, although we do draw on some works published subsequently to support
our argument. The analysis showed that management models based on high levels of hierarchy, workload
overload, reduced autonomy, and scarce spaces for participation tend to intensify psychological distress
and
hinder
its
identification
and
coping
in
the
workplace.
Studies
also
demonstrate
that
the
individualization of illness tends to obscure the influence of organizational conditions on workers’ mental
health.
In
the
Angolan
context,
the
limited
incorporation
of
mental
health
into
institutional
policies
reinforces
the
need
for
strategies
aimed
at
promoting
psychologically
safe
work
environments,
with
participatory management practices, strengthened listening mechanisms, and prevention of psychosocial
risks.
It
is
concluded
that
the
promotion
of
mental
health
at
work
depends
on
the
integration
of
organizational policies, adequate working conditions, and recognition of psychosocial factors that influence
workers’ well-being.

Keywords:
M
ental
distress
,
W
orkplace mental health, Psychosocial risks, Organizational silence, Angola

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Resumen
:
El sufrimiento
mental relacionado con el trabajo constituye un importante desafío para la salud
ocupacional, especialmente en contextos organizacionales caracterizados por riesgos psicosociales y un
apoyo
institucional
reducido.
Este
artículo
tuvo
como
objetivo
analizar
críticamente
la
producción
científica
sobre
la
relación
entre
la
organización
del
trabajo,
los
riesgos
psicosociales,
el
silencio
organizacional
y
el sufrimiento
mental
de
los
trabajadores,
con
especial énfasis
en
las
organizaciones
públicas y privadas en
Angola. Se trata de una revisión narrativa crítica de la literatura, realizada a partir
de búsquedas en las bases de datos SciELO, Redalyc, Dialnet y Latindex, complementadas con literatura
especializada publicada entre 1980 y 2024
,
aunque recurrimos a alg
unas obras publicadas posteriormente
para
reforzar
el
argumento
.
El
análisis
evidenció
que
los
modelos
de
gestión
basados
en
una
alta
jerarquización, sobrecarga de trabajo, reducida autonomía y escasez de espacios de participación tienden
a intensificar el
sufrimiento psicológico y dificultan su identificación y afrontamiento en el entorno laboral.
Los estudios también demuestran que la responsabilización individual del padecimiento tiende a ocultar
la influencia de las condiciones organizacionales sobre la
salud mental de los trabajadores. En el contexto
angoleño, la limitada incorporación de la salud mental en las políticas institucionales refuerza la necesidad
de estrategias orientadas a la promoción de entornos laborales psicólogicamente seguros, con prá
cticas de
gestión
participativas,
fortalecimiento
de
los
mecanismos
de
escucha
y
prevención
de
los
riesgos
psicosociales. Se concluye que la promoción de la salud mental en el trabajo depende de la integración
entre
políticas
organizacionales,
condiciones
laborales
adecuadas
y
el
reconocimiento
de
los
factores
psicosociales que influyen en el bienestar de los trabajadores.

Palabras
clave:
S
ufrimiento
mental,
Salud
mental
en
el
trabajo,
riesgos
psicosociales,
silencio
organizacional,
Angola

Introdução

O trabalho constitui uma dimensão central da vida humana, não apenas por assegurar os meios
de subsistência, mas também por contribuir para a construção da identidade, do reconhecimento
social e do sentido atribuído à experiência quotidiana. Para além da sua função económica, o
trabalho
influencia
o
desenvolvimento
pessoal,
as
relações
sociais
e
o
bem-estar
psicológico.
Quando
as
condições
laborais
são
marcadas
por
exigências
excessivas,
falta
de
autonomia,
relações interpessoais conflituosas ou insuficiência de recursos organizacionais, o trabalho pode
deixar
de
representar
uma
fonte
de
realização
e
transformar-se
num
importante
factor
de
sofrimento mental (Bakker & Demerouti, 2017; World Health Organization [WHO], 2022).

Nas últimas décadas, a saúde mental no trabalho passou a ocupar uma posição de destaque na
investigação
científica
e
na
formulação
de
políticas
públicas.
A
literatura
demonstra
que
a
exposição prolongada a riscos psicossociais está associada ao aumento do estresse ocupacional,
da ansiedade, da depressão, da exaustão emocional, do
burnout
, do absentismo e da redução do
desempenho profissional (Leka et al., 2008; Stansfeld & Candy, 2006). Estes efeitos ultrapassam
a esfera individual, repercutindo-se no funcionamento das organizações, na produtividade, na
qualidade dos serviços prestados e nos custos económicos e sociais decorrentes do adoecimento
relacionado com o trabalho.

Embora
os
problemas
de
saúde
mental
tenham
sido
frequentemente
interpretados
como
consequência
de
características
individuais
dos
trabalhadores,
a
evidência
científica
tem
demonstrado que o sofrimento relacionado com o trabalho resulta, sobretudo, da interacção

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entre factores organizacionais, condições laborais e relações sociais estabelecidas no contexto
profissional.

Nesta perspectiva, os modelos Demanda-Controlo de Karasek e Theorell (1990), Desequilíbrio
Esforço-Recompensa
de
Siegrist
(1996)
e
a
Psicodinâmica
do
Trabalho
de
Dejours
(1988)
convergem ao reconhecer que a forma como o trabalho é organizado constitui um dos principais
determinantes
da
saúde
mental.
Em
particular,
Dejours
(1988)
argumenta
que
o
sofrimento
emerge
quando
existe
um
desfasamento
persistente
entre
as
exigências
da
organização
e
os
valores,
expectativas
e
possibilidades
reais
de
actuação
dos
trabalhadores,
comprometendo
a
construção do sentido atribuído ao trabalho.

Entre os factores organizacionais associados à manutenção desse sofrimento, destaca-se o silêncio
organizacional, definido como a retenção consciente de opiniões, preocupações, sugestões ou
informações relevantes acerca de problemas existentes no trabalho (Morrison, 2014; Morrison &
Milliken, 2000).

Em ambientes caracterizados por liderança excessivamente centralizada, comunicação limitada,
medo
de
represálias
ou
reduzida
segurança
psicológica,
os
trabalhadores
tendem
a
evitar
a
expressão
das
suas
preocupações,
restringindo
a
circulação
de
informação
essencial
para
a
aprendizagem organizacional, a prevenção de riscos e a promoção da saúde mental (Edmondson,
2018). Nestas circunstâncias, o silêncio deixa de constituir apenas uma escolha individual e passa
a representar um fenómeno organizacional que pode perpetuar práticas de gestão inadequadas e
agravar os riscos psicossociais.

No
contexto
angolano,
esta
problemática
assume
particular
relevância
em
virtude
das
transformações económicas e institucionais verificadas nas últimas décadas e das especificidades
que
caracterizam
muitas
organizações
públicas
e
privadas.
Estruturas
hierárquicas
rígidas,
processos administrativos burocráticos, limitações na gestão de pessoas e reduzidos mecanismos
de participação dos trabalhadores continuam a influenciar as experiências laborais em diversos
sectores.

Apesar
da
crescente
atenção
dedicada
à
saúde
mental
ocupacional
em
diferentes
países,
permanece limitada a
produção
científica
que sintetize criticamente as evidências disponíveis
sobre
o
sofrimento
mental
relacionado
com
o
trabalho,
os
riscos
psicossociais
e
o
silêncio
organizacional em Angola. Esta limitação dificulta a compreensão integrada do fenómeno, limita
a identificação dos principais factores organizacionais envolvidos e reduz a disponibilidade de
evidências
que
possam
fundamentar
estratégias
de
prevenção
e
promoção
da
saúde
mental
adaptadas à realidade nacional.

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88

Neste
sentido,
torna-se
pertinente
realizar
uma
revisão
sistemática
da
literatura
que
permita
reunir,
analisar
e
integrar
criticamente
o
conhecimento
científico
disponível.
Para
além
de
identificar
tendências
da
investigação,
esta
abordagem
possibilita
reconhecer
limitações
metodológicas,
inconsistências
entre
os
estudos
e
áreas
que
permanecem
insuficientemente
exploradas, contribuindo para o desenvolvimento do conhecimento científico e para o apoio à
tomada de decisão por parte de investigadores, gestores e formuladores de políticas públicas.

Assim, o presente estudo tem como objectivo analisar criticamente a produção científica sobre o
sofrimento mental relacionado com o trabalho, os riscos psicossociais e o silêncio organizacional,
com especial enfoque no contexto angolano. Especificamente, pretende identificar os principais
factores organizacionais associados ao sofrimento mental dos trabalhadores, examinar o papel do
silêncio
organizacional
na
manutenção
ou
intensificação
desse
sofrimento
e
discutir
as
implicações das evidências disponíveis para a promoção de ambientes de trabalho mais saudáveis,
participativos e psicologicamente seguros.

Ao
reunir
criticamente
o
conhecimento
disponível,
o
estudo
procura
contribuir
para
uma
compreensão mais abrangente da relação entre organização do trabalho, riscos psicossociais e
saúde
mental,
oferecendo
subsídios
para
futuras
investigações
e
para
o
desenvolvimento
de
práticas
organizacionais
orientadas
para
a
prevenção
do
sofrimento
psicológico
e
para
a
promoção do bem-estar no trabalho.

Revisão da Literatura

Riscos Psicossociais e seus Impactos nas Organizações

A literatura evidencia que os riscos psicossociais constituem um dos principais factores associados
ao sofrimento mental relacionado ao trabalho, sobretudo em organizações caracterizadas por
elevada exigência laboral, reduzida autonomia, relações hierárquicas rígidas e insuficiência de
apoio institucional. Sob a perspectiva da psicodinâmica do trabalho, Dejours (1988) argumenta
que o sofrimento não decorre exclusivamente de características individuais, mas da forma como
o trabalho é organizado.

O sofrimento ético manifesta-se quando o trabalhador é impedido de exercer a sua actividade em
consonância
com
os
seus
valores
profissionais,
em
consequência
de
normas
institucionais,
prácticas de gestão ou relações de poder que limitam a sua autonomia. Essa interpretação é
ampliada
por
Jiménez
(2011),
ao
afirmar
que
os
riscos
psicossociais
são
produzidos
pelas
condições
organizacionais
e
pelas
relações
estabelecidas
no
ambiente
de
trabalho.
Nessa

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perspectiva, factores como sobrecarga laboral, insegurança ocupacional, baixa participação nas
decisões e relações interpessoais conflituosas favorecem o desenvolvimento de estresse crónico,
desgaste emocional e comprometimento da saúde mental.

De modo semelhante, Gil-Monte (2009, 2012) e Rios (2008) destacam que esses factores afectam
não apenas o equilíbrio psicológico dos trabalhadores, mas também a qualidade das relações
sociais,
a
satisfação
profissional
e
o
significado
atribuído
ao
trabalho.
Leka
et
al
.
(2008)
sistematizam esses riscos em diferentes dimensões organizacionais, entre as quais se destacam a
carga
excessiva
de
trabalho,
o
reduzido
controlo
sobre
as
actividades,
ambientes
físicos
inadequados,
fragilidade
das
relações
interpessoais,
culturas
organizacionais
excessivamente
hierarquizadas e elevadas exigências emocionais sem mecanismos institucionais de suporte. Esses
factores tendem a interagir entre si, aumentando a probabilidade de adoecimento psicológico e
reduzindo a capacidade das organizações para promover ambientes de trabalho saudáveis.

No contexto angolano, a literatura disponível indica que muitos desses factores se manifestam em
organizações públicas e privadas, onde práticas de gestão centralizadas, limitada participação dos
trabalhadores e reduzida valorização da saúde mental permanecem presentes. Em consequência,
o sofrimento psicológico tende a ser invisibilizado ou interpretado como dificuldade individual,
dificultando o reconhecimento dos factores organizacionais que contribuem para o adoecimento.

Estudos desenvolvidos em Angola reforçam essa interpretação. Sousa (2025b) identifica a pressão
organizacional
e
a
insuficiência
de
suporte
emocional
como
elementos
que
favorecem
o
sofrimento psíquico dos trabalhadores. Em Angola, o estigma associado aos problemas de saúde
mental, aliado à limitada disponibilidade de serviços especializados e à reduzida capacidade de
resposta
institucional,
continua
a
constituir
um
importante
obstáculo
ao acesso
aos
cuidados
psicológicos e psiquiátricos, sobretudo nos serviços públicos (World Health Organization, 2022).
Por sua vez, Mizé (2023), ao investigar profissionais de saúde durante a pandemia da COVID-
19, verificou que metade dos participantes trabalhava em ambientes organizacionais considerados
desestruturados,
enquanto
26%
relataram
aumento
significativo
da
pressão
emocional,
evidenciando a influência das condições de trabalho sobre o bem-estar psicológico.

Em
conjunto,
as
evidências
analisadas
demonstram
que
os
riscos
psicossociais
devem
ser
compreendidos
como
resultado
das
condições
de
organização
do
trabalho
e
das
práticas
de
gestão, e não como expressão exclusiva da vulnerabilidade individual. Esse entendimento reforça
a
necessidade
de
políticas
institucionais
voltadas
para
a
promoção
da
saúde
mental,
o

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fortalecimento
de
ambientes
organizacionais
participativos
e
a
implementação
de
práticas
de
gestão que favoreçam o diálogo, o reconhecimento e o apoio aos trabalhadores.

O Silêncio como Estratégia de Sobrevivência Organizacional

O silêncio, no contexto organizacional, ultrapassa a simples ausência de comunicação. A literatura
contemporânea
descreve-o
como
um
comportamento
organizacional
complexo,
influenciado
pelas relações de poder, pelos estilos de liderança e pela cultura institucional, podendo funcionar
como estratégia de autoprotecção em ambientes percebidos como inseguros para a expressão de
opiniões, preocupações ou críticas (Knoll & Van Dick, 2013; Morrison, 2014).

Em contextos marcados por forte hierarquização e baixa segurança psicológica, os trabalhadores
tendem a restringir a expressão de ideias ou dificuldades por receio de retaliação ou de inutilidade
da sua manifestação. Nesse sentido, a literatura sobre
voice behavior
e
employee silence
destaca
que
o
silêncio
pode
assumir
formas
distintas,
incluindo
silêncio
defensivo,
pró-social
ou
de
resignação (Brinsfield, 2013; Morrison & Milliken, 2000; Pinder & Harlos, 2001).

Na perspectiva da psicodinâmica do trabalho, Dejours (1988) argumenta que o silêncio pode
constituir uma resposta ao sofrimento ético, situação em que o trabalhador é impedido de exercer
a sua actividade em conformidade com os seus valores profissionais. Nesses casos, a omissão de
críticas ou emoções funciona como estratégia de adaptação às exigências organizacionais, embora
possa contribuir para o agravamento do sofrimento psicológico quando se torna prolongada.

A manutenção deste comportamento também está associada à ausência de canais institucionais
de escuta e participação. Organizações com reduzidos mecanismos de comunicação ascendente
tendem
a
limitar
a
circulação
de
informação
crítica,
o
que
compromete
a
aprendizagem
organizacional e o reconhecimento precoce de riscos psicossociais (Edmondson, 2018; Morrison,
2014). Jiménez (2011) enfatiza que a inexistência de espaços de reconhecimento das experiências
subjectivas
dos
trabalhadores
dificulta
a
gestão
do
sofrimento
no
trabalho
e
favorece
a
sua
cronificação.

Do ponto de vista dos efeitos organizacionais, o silêncio está associado à redução da confiança, à
diminuição do comprometimento e ao aumento do estresse ocupacional. Para Gil-Monte (2009),
e
segundo
estudos
mais
recentes
sobre
riscos
psicossociais,
ambientes
com
baixa
abertura
comunicacional
apresentam
maior
prevalência
de
burnout
e
desgaste
emocional,
sobretudo
quando combinados com exigências elevadas e baixo suporte social (Bakker & Demerouti, 2017).

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No contexto angolano, a literatura sugere que estruturas organizacionais marcadas por elevada
centralização decisória e limitada participação dos trabalhadores podem favorecer a manutenção
do
silêncio
institucional.
Esta
realidade
reforça
a
necessidade
de
políticas
organizacionais
orientadas
para
a
promoção
da
saúde
mental,
com
ênfase
em
práticas
de
liderança
mais
participativas, criação de canais formais de escuta e fortalecimento da segurança psicológica no
trabalho. Estudos indicam que a promoção de ambientes psicologicamente seguros depende não
apenas
de
intervenções
individuais,
mas
sobretudo
de
mudanças
estruturais
na
gestão
organizacional, incluindo a valorização da voz do trabalhador como elemento estratégico para o
desempenho e para a saúde ocupacional (Edmondson & Bransby, 2023).

Sofrimento Mental: Entre o risco colectivo e a responsabilização individual

Falar de sofrimento psicológico no trabalho exige ir além da ideia de que tudo depende das
características
pessoais
do
trabalhador.
É
claro
que
cada
pessoa
reage
de
forma
diferente
às
exigências do dia a dia, mas isso não explica, por si só, por que certos contextos organizacionais
produzem níveis elevados de desgaste emocional de forma sistemática. A literatura sobre saúde
ocupacional tem mostrado que o modo como o trabalho é organizado pesa tanto ou mais do que
as características individuais na origem do sofrimento (Karasek & Theorell, 1990).

A psicodinâmica do trabalho ajuda a compreender este fenómeno de forma mais profunda. Para
Dejours (1988), o sofrimento aparece quando existe um conflito entre aquilo que o trabalhador
considera eticamente aceitável e aquilo que a organização o obriga a fazer ou a tolerar. Quando
não há margem para decidir, ajustar ou participar, o trabalho deixa de ser apenas uma actividade
e passa a ser uma fonte constante de tensão interna. Outras abordagens da psicologia do trabalho
reforçam esta leitura a partir de diferentes ângulos.

O modelo das exigências e recursos mostra que o desgaste emocional aumenta quando as tarefas
exigem muito
esforço, mas os recursos disponíveis
são escassos, como apoio, autonomia
ou
reconhecimento
(Bakker
&
Demerouti,
2017).
Da
mesma
forma,
estudos
sobre
estresse
ocupacional
indicam
que
a
combinação
entre
pouca
autonomia
e
baixo
suporte
social
cria
condições persistentes de risco para a saúde mental (Stansfeld & Candy, 2006). Mesmo com este
conhecimento acumulado, ainda é comum encontrar organizações que interpretam o sofrimento
psicológico como resultado de fragilidade pessoal.

Nesta lógica, o problema passa a ser visto como falta de resistência individual ou dificuldade de
adaptação, o que acaba por desviar a atenção das condições concretas de trabalho. Este tipo de
leitura é criticado por vários autores por reforçar uma visão individualizante que pouco contribui
para a prevenção real do problema (Karanika-Murray & Biron, 2015). Ferreira (1988) já chamava

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92

a atenção para este risco, defendendo que o sofrimento no trabalho só pode ser compreendido
a partir da forma como as actividades são organizadas e geridas. Quando se observa o trabalho
de perto, percebe-se que factores como hierarquia rígida, distribuição desigual de tarefas e pouca
autonomia têm impacto directo na saúde psicológica dos trabalhadores. Este ponto é reforçado
por modelos clássicos como o de Karasek e Theorell (1990) e o de Siegrist (1996), que mostram
como o desequilíbrio entre exigências e controlo ou entre esforço e recompensa está associado
ao aumento do sofrimento psicológico.

Em contextos como o de Angola, estas questões tornam-se ainda mais relevantes, uma vez que
muitas
organizações
ainda
funcionam
com
estruturas
bastante
hierarquizadas
e
com
pouca
integração
da
saúde
mental
nas
políticas
de
gestão.
Estudos
internacionais
mostram
que
ambientes
organizacionais
muito
centrados
em
resultados
tendem
a
reduzir
a
expressão
das
dificuldades dos trabalhadores e a aumentar o risco de desgaste emocional (Leka
et al
., 2008;
World Health Organization [WHO], 2022). Por isso, intervenções focadas apenas no indivíduo
acabam por ter resultados limitados quando não são acompanhadas por mudanças no próprio
ambiente de trabalho.

A
evidência
científica
aponta
para
a
necessidade
de
abordagens
mais
amplas,
que
incluam
mudanças na organização do trabalho, na forma de liderança e na abertura à participação dos
trabalhadores (Nielsen
et al
., 2017; WHO, 2022). Contudo, a literatura converge na ideia de que
a saúde mental no trabalho não depende apenas de factores individuais, mas sobretudo da forma
como o trabalho é estruturado. Isso coloca a organização do trabalho no centro das estratégias de
prevenção e promoção do bem-estar psicológico.

Metodologia

O presente estudo caracteriza-se como uma revisão narrativa sistemática da literatura, enquadrada
nas
tipologias
de
revisão
descritas
por
Grant
e
Booth
(2009).
A
opção
por
este
desenho
metodológico
permite
integrar
diferentes
perspectivas
teóricas
sem
recorrer
a
uma
síntese
estatística.

O objectivo foi analisar criticamente a produção científica sobre o sofrimento mental relacionado
com o trabalho, os riscos psicossociais e o silêncio organizacional nos contextos de organizações
públicas e privadas em Angola. Trata-se de uma revisão narrativa crítica (Rother, 2007), que
privilegia a interpretação e a integração conceptual das evidências disponíveis.

Estratégia de Busca e Critérios de Elegibilidade

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93

A busca bibliográfica foi realizada
nas bases de dados SciELO, Redalyc, Dialnet e Latindex.
Foram ainda consultadas obras académicas e relatórios institucionais relevantes. O período de
publicação
considerado
foi
de
1980
a
2024,
permitindo
abranger
a
evolução
conceptual
das
abordagens sobre saúde mental no trabalho e riscos psicossociais. Foram utilizados descritores
em
português,
inglês
e
espanhol,
incluindo:
“sofrimento
mental
no
trabalho”,
“
work-related
stress
”, “
psychosocial risks
”, “
organizational silence
”, “
work organization
” e “
burnout
”.

Foram incluídos estudos que cumpriam os seguintes critérios: a) abordagem teórica ou empírica
sobre
o
sofrimento
mental
relacionado
com
o
trabalho;
b)
foco
em
riscos
psicossociais,
organização do trabalho ou saúde mental ocupacional; c) análise de contextos organizacionais
públicos ou privados; d) publicações com relevância científica reconhecida no campo.

Foram excluídos: a) estudos exclusivamente biomédicos ou
psiquiátricos sem relação com
o
contexto
laboral;
b)
trabalhos
centrados
apenas
na
gestão
administrativa
sem
abordagem
psicossocial; c) publicações sem base metodológica clara ou sem acesso ao texto integral.

Processo de Selecção dos Estudos e Estratégia de Análise

A selecção das fontes seguiu três etapas sequenciais:

O processo de selecção privilegiou a consistência conceptual e a relevância para os objectivos do
estudo, assegurando a coerência na construção do
corpus
analítico. Este processo aproxima-se
das recomendações metodológicas de transparência na selecção de estudos em revisões (Moher
et al., 2009).

Os estudos seleccionados foram submetidos à análise temática e complementada pela abordagem
clássica de análise de conteúdo de Bardin (2016). A categorização foi organizada em três eixos
principais: organização do trabalho, riscos psicossociais e sofrimento mental.

O
processo
analítico
centrou-se
na
identificação
de
convergências
teóricas,
divergências
interpretativas e padrões recorrentes na literatura. A interpretação dos dados foi orientada por
um
enquadramento
teórico
baseado
na
psicodinâmica
do
trabalho
(Dejours,
1988),
na
abordagem dos riscos psicossociais (Gil-Monte, 2009, 2012; Leka
et al
., 2008) e em perspectivas
críticas sobre a organização do trabalho e subjectividade laboral.

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Discussão dos Resultados

A
literatura
analisada
aponta
que
o
sofrimento
mental,
associado
ao
trabalho,
não
pode
ser
compreendido a partir de uma leitura centrada apenas no indivíduo. Pelo contrário, trata-se de
um fenómeno que emerge da forma como o trabalho é organizado, das relações estabelecidas no
ambiente laboral e das condições institucionais que moldam a experiência profissional.

Os estudos consultados mostram uma convergência relevante: ambientes de trabalho marcados
por
hierarquias
rígidas,
pouca
autonomia,
excesso
de
tarefas
e
fraca
participação
dos
trabalhadores tendem a favorecer o aparecimento de desgaste emocional, estresse ocupacional e
outras manifestações de sofrimento
psicológico. Ainda
assim, essa
convergência não significa
uniformidade teórica. Para Dejours (1988), por exemplo, o sofrimento é compreendido como
resultado
directo
da
organização
do
trabalho
e
do
modo
como
o
sujeito
tenta
adaptar-se
a
exigências muitas vezes contraditórias. Já Gil-Monte (2009, 2012) enfatiza o papel do desgaste
progressivo ligado ao contexto laboral e às exigências emocionais contínuas. Leka
et al
. (2008),
por sua vez, destacam a interação entre factores organizacionais e psicossociais, sublinhando o
impacto
das condições de gestão
na
saúde mental. Em conjunto, estas abordagens ajudam a
perceber
que
o
problema
não
está
apenas
no
trabalhador,
mas
na
estrutura
que
organiza
o
trabalho.

No contexto angolano, os estudos disponíveis sugerem que estas dinâmicas podem ganhar maior
expressão em organizações onde a tomada de decisão é altamente centralizada e a participação
dos trabalhadores nos processos internos é limitada. Nestas condições, o sofrimento psicológico
tende a ser pouco reconhecido, não por ausência de sinais, mas por dificuldades institucionais
em identificar, escutar e tratar essas manifestações de forma consistente.

Os resultados desta revisão indicam ainda que a promoção da saúde mental no trabalho não se
esgota
em
intervenções
dirigidas
ao
indivíduo.
Quando
as
acções
se
concentram
apenas
no
trabalhador,
sem
alteração
das
formas
de
organização
do
trabalho,
os
efeitos
tendem
a
ser
limitados. O foco precisa de se deslocar também para as práticas de gestão, para as relações de
trabalho e para as formas de comunicação interna.

Nesse sentido, a criação de espaços de escuta, o reforço da comunicação entre níveis hierárquicos,
a valorização da participação dos trabalhadores nas decisões e a formação de lideranças mais
sensíveis às dimensões psicossociais surgem como elementos com potencial para melhorar o

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ambiente laboral e reduzir o desgaste emocional. Mais do que medidas pontuais, trata-se de
repensar a forma como o trabalho é organizado no dia-a-dia.

Ainda
assim,
a
produção
científica
sobre
organizações
em
Angola
permanece
pouco
desenvolvida,
sobretudo
no
que
diz
respeito
a
estudos
empíricos
em
diferentes
sectores
de
actividade. Esta limitação não invalida o que já se sabe, mas reforça a necessidade de aprofundar
investigações
que
permitam
compreender
melhor
como
estas
dinâmicas
se
expressam
no
contexto nacional e como podem ser enfrentadas de forma mais ajustada à realidade local.

Portanto,
o
sofrimento
mental
no
trabalho
deve
ser
entendido
como
resultado
de
múltiplas
dimensões que se cruzam no quotidiano organizacional. Quando o trabalho ignora a dimensão
humana da experiência profissional, o impacto não se limita ao indivíduo, reflectindo-se também
na qualidade das relações de trabalho e no funcionamento das próprias instituições.

Conclusão

A
presente
revisão
crítica
da
literatura
permitiu
compreender
que
o
sofrimento
mental
relacionado com o trabalho constitui um fenómeno multidimensional, resultante da interação
entre factores organizacionais, psicossociais e institucionais. As evidências analisadas indicam que
a forma como o trabalho é organizado, as práticas de gestão, os estilos de liderança e a qualidade
das relações laborais exercem influência significativa sobre a saúde mental dos trabalhadores,
ultrapassando interpretações centradas exclusivamente em características individuais.

A análise dos estudos evidencia que contextos organizacionais marcados por elevada pressão
laboral, reduzida autonomia, comunicação limitada, fraco reconhecimento profissional e escassa
participação nos processos de decisão tendem a aumentar a exposição aos riscos psicossociais e
a
favorecer
diferentes
manifestações
de
sofrimento
psicológico.
Estes
resultados
reforçam
a
necessidade de compreender a saúde mental como uma dimensão indissociável da qualidade das
condições de trabalho e da gestão das organizações.

No contexto angolano, a revisão permitiu identificar que a produção científica sobre esta temática
ainda é limitada, sobretudo no que respeita à investigação empírica em diferentes sectores de
actividade. Embora as evidências disponíveis apontem para desafios relacionados com modelos
de gestão fortemente centralizados e com a reduzida integração da saúde mental nas práticas
organizacionais, permanece necessária a produção de conhecimento que permita compreender,

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com
maior
profundidade,
as
especificidades
da
realidade
nacional
e
apoiar
a
definição
de
respostas ajustadas às necessidades das instituições e dos trabalhadores.

Uma
das
principais
contribuições
deste
estudo
consiste
em
reunir
e
articular
diferentes
perspectivas teóricas sobre os riscos psicossociais, o silêncio organizacional e o sofrimento mental,
evidenciando
que
a
promoção
da
saúde
psicológica
exige
intervenções
que
ultrapassem
abordagens exclusivamente individuais. A criação de ambientes
de trabalho
que valorizem o
diálogo, o reconhecimento profissional, a participação dos trabalhadores e o desenvolvimento de
lideranças comprometidas com o bem-estar colectivo constitui um elemento essencial para a
prevenção do sofrimento psicológico e para o fortalecimento das organizações.

Importa reconhecer que esta investigação apresenta limitações inerentes à natureza da revisão
narrativa
da
literatura,
a
qual
depende
das
evidências
disponíveis
e
não
permite
estimar
a
magnitude
das
associações
identificadas
nem
estabelecer
relações
causais
entre
as
variáveis
analisadas.
Por
esse
motivo,
recomenda-se
o
desenvolvimento
de
estudos
empíricos
em
organizações angolanas, recorrendo a abordagens quantitativas, qualitativas e mistas, capazes de
aprofundar a compreensão dos factores associados ao sofrimento mental e de avaliar a eficácia
de estratégias de prevenção e promoção da saúde mental no trabalho.

Portanto, compreender o sofrimento mental como expressão das condições em que o trabalho é
organizado representa um passo indispensável para a construção de organizações mais saudáveis,
inclusivas e sustentáveis. Incorporar a saúde mental nas políticas institucionais deixa de ser apenas
uma medida de proteção dos trabalhadores e passa a constituir uma condição para melhorar a
qualidade do trabalho, fortalecer o desempenho
organizacional e promover relações laborais
mais justas e humanizadas.

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